Columbine II
Amendment II
A well regulated militia, being necessary to the security of a free state, the right of the people to keep and bear arms, shall not be infringed.
Dita assim a 2ª emenda (ou aditamento, como preferirem), ratificada em 15/12/1791, à Constituição dos Estados Unidos da América.
Segunda-feira, dia 16 de Abril de 2007, Universidade Virginia Tech, no Estado da Virginia. Cho Seung-Hui, 23 anos, descrito como "uma pessoa solitária", espalha o pânico no campus universitário, atingindo mortalmente 32 pessoas, entre estudantes e professores, para por fim pôr termo à própria vida, com um tiro na cabeça. Trata-se do maior massacre de sempre ocorrido no universo escolar norte-americano, ao qual muitos já atribuem o título cheesy "Columbine 2", à boa maneira americana, como se de uma sequela cinematográfica se tratasse do ataque no liceu de Columbine, em Abril de 1999. Àparte o mau gosto latente na escolha de palavras, a verdade é que tais actos se têm vindo a repetir com uma assiduidade preocupante, no país do Tio Sam, onde apenas nos últimos 10 anos se contabilizam mais de 80 vítimas mortais e algumas dezenas de feridos. O filme não varia muito: jovem adolescente, ou pouco mais velho, solitário, incompreendido, ostracizado, decide ter os seus 15 minutos de fama e pega em armas, geralmente caseiras. Entra no recinto escolar e atira a matar a tudo o que mexe, para acabar ele próprio por morrer com o fogo com que matou.
No rescaldo da situação procura-se, uma vez mais, apurar responsabilidades sem que, a meu ver se pense 2 vezes no que está verdadeiramente em causa. Sim, a direcção da Universidade podia ter feito algo mais do que enviar e-mails de alerta, a polícia deveria ter actuado com maior eficiência, de forma a que não andasse um tipo durante 2 horas aos tiros mas... será isto tudo o que há para concluir?
Em 2002, Michael Moore pôs o dedo na ferida com o seu "Bowling for Columbine", fazendo um olhar sobre uma América onde reina uma cultura do uso de armas, impulsionada por poderosos lobbies como a NRA (presidida pelo famoso Charlton Heston), que exercem influência na Administração Federal. Todos os anos morrem, em média, mais de 11000 pessoas, vítimas de armas de fogo nos EUA. Não será este número revelador de que algo não funciona bem na sociedade americana, na forma como se liberaliza a posse de armas? Mais a mais, atendendo aos últimos acontecimentos, quando se vem a saber que a Virginia é o 2º Estado mais permissivo na aquisição de armas. Alguém quer continuar a acreditar que se tratam de infelizes coincidências?
Gente desesperada, à beira de cometer um acto de loucura existe por todo o lado e, ainda assim, os EUA são o país do "mundo civilizado" onde tais morticínios ocorrem de forma tão reiterada.
Os exemplos devem vir de cima e, no entanto, quem está no topo continua a escudar-se com uma velhinha emenda (com mais de 200 anos) à Constituição, elaborada numa época conturbada da democracia norte-americana, num contexto completamente díspar do actual.
Desta vez foi Cho Seung-Hui a puxar o gatilho, mas quem lhe deu uma arma carregada para as mãos? Qual é a verdadeira condição sine qua non destes actos tresloucados, ou tratar-se-ão de actos isolados no espaço e no tempo? Perguntas a que urge responder.
Saudações académicas!
